Polinização que vira proteína: projeto na Serra da Paulista integra mel, peixes e gado

Iniciativa liderada por botânico cria um sistema orgânico em que abelhas impulsionam frutas, piscicultura e carne bovina

Atualizado em 22/12/2025 às 10:12, por Igor Savenhago.

Propriedade de Felipe Meireles produz mel de abelhas com e sem ferrão. Foto: Felipe Meireles/Divulgação

O que começou como um empreendimento voltado exclusivamente à produção de mel acabou se transformando em um modelo inovador de integração agroecológica no interior de São Paulo. Na Serra da Paulista, em São João da Boa Vista, o botânico e sommelier de mel Felipe Meireles desenvolveu um sistema produtivo que conecta a criação de abelhas à fruticultura, à piscicultura e à pecuária, em um ciclo praticamente sem desperdícios.

Apaixonado por abelhas desde a infância, Meireles encontrou há cerca de cinco anos a área ideal para instalar um meliponário e um apiário. A escolha do local foi estratégica: a região é marcada por pecuária leiteira, cana orgânica e terrenos pedregosos que dificultam a mecanização agrícola. Esse conjunto reduz a presença de agrotóxicos, uma ameaça conhecida às populações de abelhas.

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A propriedade, antes ocupada por uma antiga lavoura de café e pastagens degradadas, passou por uma profunda transformação. Aos poucos, deu lugar a um extenso jardim botânico com cerca de 900 espécies de árvores frutíferas, incluindo variedades raras. Aproximadamente 20% delas já produzem frutos; o restante deve entrar em fase produtiva nos próximos anos. Segundo Meireles, a ideia inicial era garantir diversidade de flores para as abelhas e, com isso, ampliar a complexidade sensorial dos méis.

O resultado foi além do esperado. Com a intensificação da polinização, as árvores passaram a produzir volumes muito maiores de frutas. O excedente, inicialmente um problema, acabou abrindo caminho para novas soluções. Parte da produção virou geleias e compotas, mas ainda assim sobravam frutas que caíam no solo, favorecendo a proliferação de insetos que ameaçavam as abelhas nativas sem ferrão.

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Jardim botânico tem cerca de 900 espécies de árvores frutíferas. Foto: Felipe Meireles/Divulgação

Peixes

A saída veio da piscicultura. Meireles decidiu aproveitar o excedente como alimento para peixes. Após testes frustrados com o tambaqui, sensível às baixas temperaturas da região, ele encontrou nos híbridos tambacu e patinga espécies mais adaptadas ao clima local. Hoje, quatro tanques escavados na propriedade recebem peixes alimentados basicamente com frutas do pomar.

Cada tanque produz cerca de 600 quilos de pescado. Quando os peixes atingem entre 2 e 2,5 quilos, são comercializados para pesqueiros. O lodo retirado na limpeza dos tanques retorna ao sistema como adubo orgânico para as árvores, fechando mais uma etapa do ciclo produtivo. Além disso, o pomar atrai aves, que ajudam na dispersão de sementes e ampliam a área de floração no entorno, beneficiando diretamente a produção de mel.

O conceito chamou a atenção de especialistas. Em 2022, o projeto foi premiado no Congresso Melhores da Meliponicultura, em Santos, e apresentado no 1º Congresso Amazonense de Meliponicultura, na Universidade Federal do Amazonas. A palestra recebeu um título provocativo: “Abelhas produzindo carne”. Segundo Meireles, a frase resume bem a lógica do sistema. “Tudo começa com as abelhas. As outras atividades existem para fortalecer a produção de mel”, afirma.

Propriedade tem quatro tanques, com criação de tambacu e patinga. Foto: Felipe Meireles/Divulgação

Mesmo assim, o processo continuou evoluindo. Com frutas ainda disponíveis, Meireles decidiu incorporá-las à alimentação do rebanho de cerca de 70 cabeças de gado Nelore, voltado à recria. Goiabas, pitangas e amoras passaram a complementar o trato convencional dos animais. Há exceções, como a carambola, evitada por riscos à saúde dos mamíferos, embora seja bem aceita pelos peixes.

A diversidade do jardim botânico também abriu novas frentes de atuação, como a venda de mudas raras para colecionadores e a criação de uma pequena hospedaria, voltada a visitantes interessados em conhecer o pomar e experimentar diferentes tipos de mel.

A expectativa de Meireles é que o sistema atinja sua plena maturidade em um horizonte de cinco a dez anos, quando todas as espécies frutíferas estiverem em produção. Para ele, o projeto reforça um princípio básico da ecologia. “As abelhas existem para polinizar. Garantir esse processo é fundamental, porque elas estão por trás da maior parte dos alimentos que consumimos. O mel vem depois”, resume. Uma visão que coloca esses insetos no centro de um modelo produtivo que alia conservação, inovação e sustentabilidade

Felipe Meireles alimenta os peixes com o excedente das frutas. Foto: Felipe Meireles/Divulgação

Igor Savenhago

Jornalista. Pós-doutor em Ciências da Comunicação, doutor e mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade. Tem experiências em jornais, revistas, rádios, TVs, sites e assessorias de imprensa. Ganhador de sete prêmios como repórter e editor, e 17 como orientador acadêmico.